BAUDELAIRE, LA FEMME ET L'AMOUR

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    10-Jan-2017

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  • Resumo

    O texto procura ilustrar a partir de poemas escolhidosem Les Fleurs du Mal, as ambigidades inerentes con-cepo baudelairiana do amor.

    Rsum

    Sinspirant des Fleurs du Mal, le texte prtend illustrerles ambiguts inhrentes la conception baudelairienne delamour.

    Palavras-chave

    Amor, Mulher, Carne, Esprito, Morte.

    Nas primeiras pginas de Mon Coeur mis nu,encontramos a seguinte definio da mulher:

    La femme est le contraire du dandy.Donc elle doit faire horreur.La femme a faim et elle veut manger; soif, et elle veut boire.Elle est en rut et elle veut tre foutue.Le beau mrite!La femme est naturelle, cest--dire abominable.Aussi est-elle toujours vulgaire, cest--dire le contraire dudandy.

    O dandismo de Baudelaire designa no sculo XIXuma atitude de vida. O que distingue o dndi o desprezopelas massas, pelo comum e pelo vulgar, sua preocupaocom a originalidade e o refinamento. O dndi um esteta.Na coletnea de crticas consagradas aos pintores da suapoca, Curiosits Esthtiques, Baudelaire chega a consideraro dandismo como une espce de culte de soi-mme (...)une espce de religion.

    Le dandysme est un soleil couchant; comme lastre quidcline, il est superbe, sans chaleur et plein de mlancolie.

    com muito ardor que, na mesma obra, o poeta fustiga quemtoma partido pela natureza, pois ela m conselheira em

    matria de moral e de beleza, denuncia o poeta. A mulherento s se torna dolo, quando disfara a sua natureza pelojogo de artifcios sedutores ou mgicos como perfume,roupas esvoaantes, jias, maquilagem. Uma vez adornada,ornamentada, a mulher astro, divindade. Mas nada dejubilaes precipitadas, ela permanece estpida:

    Cest une espce didole, stupide peut-tre, mais blouissante,enchanteresse, qui tient les destines et les volontssuspendues ses regards.

    Estupidez abenoada pois fonte provvel do eterno divinofeminino. Baudelaire acrescenta:

    (...) cet tre (est) terrible et incommunicable comme Dieu(avec cette diffrence que linfini ne se communique pasparce quil aveuglerait et craserait le fini, tandis que ltredont nous parlons nest peut-tre incomprhensible que parcequil na rien communiquer);

    O dndi resolutamente no quer se deixar comover.No entanto, ele escrevia tambm no belo prefcio de LesParadis Artificiels:

    .., la femme est ltre qui projette la plus grande ombre oula plus grande lumire dans nos rves. La femme est fatale-ment suggestive; elle vit dune autre vie que la sienne propre;elle vit spirituellement dans les imaginations quelle hanteet quelle fconde.

    No se deve estranhar a aparente contradio, ela esclarecea atitude fundamental do poeta frente mulher, que cristalizaas suas emoes, angstias, fascinaes e repulsas. O poemaA une Madone , desse ponto de vista, muito explcito. Asduas atitudes antagnicas de Baudelaire em relao mulherafirmam-se, uma aps a outra e com igual rigor. Ou oadmirador exaltado ajoelha-se para melhor cultuar a Madona,distante e sagrada, ou o idlatra arma-se de repente e fazda tbua de salvao uma tbua de tiro ao alvo. Amor ebarbrie andam juntos. O crtico Luc Decaunes confirmanesses termos:

    Martine Suzanne Kunz*

    * Professor Adjunto de Lngua e Literatura Francesas da UFC, Departamento de Letras Estrangeiras UFC.

  • Cest lIdole ou la Chienne quil sadresse,... Jamais lamante, dsir et spiritualit confondus. Il ne conoitlamour-sentiment que comme une adoration ptrie dechastet et dhumiliation.

    Quanto relao sexual entre o homem e a mulher, lembra-mos o desabafo irnico do poeta nos seus Journaux Intimes:

    Dans lamour, comme dans presque toutes les affaireshumaines, lentente cordiale est le rsultat dun malentendu.Ce malentendu, cest le plaisir. Lhomme crie: Oh monange! La femme roucoule: Maman! Maman! Et ces deuximbciles sont persuads quils pensent de concert. - Legouffre infranchissable, qui fait lincommunicabilit, resteinfranchi.

    s vezes, difcil distinguir a provocao da since-ridade nas declaraes de Baudelaire. O certo que a mulheraparece nas Fleurs du Mal sob diversos aspectos e que apresena feminina no se reduz a essa desenvoltura e essedesprezo, ela mais, a mulher magnificada pelo esplendorda expresso.

    Os poemas de inspirao amorosa constituem umconjunto coerente e numeroso na obra do poeta, mais dametade do captulo intitulado Spleen et Ideal. nesses versosque a vida ntima do poeta manifesta melhor a sua presena.Assim, como um lbum de mulheres amadas, os poemaspodem ser agrupados e repartidos em funo das suas inspi-radoras. Os ciclos geralmente identificados pelos estudiososorganizam-se da maneira seguinte:

    O ciclo de Jeanne Duval (de Parfum Exotique a Je tedonne ces vers... - XXII a XXXIX)

    O ciclo de Madame Sabatier (de Semper eadem a LeFlacon - XL a XLVIII)

    O ciclo de Marie Daubrun (de Le Poison a A unemadone - XLIX a LVII)Enfim, o ciclo das mulheres diversas (de Chanson daprs-midi a Sonnet dautomne - LVIII a LXIV)A no ser o ltimo grupo cujas homenageadas foram apenasparcialmente identificadas, Jeanne Duval, Madame Sabatiere Marie Daubrun foram descobertas pelos eruditos.

    Jeanne Duval era uma mulata que trabalhava comofigurante num pequeno teatro. A Vnus noire exerceu umpoder tirnico sobre os sentidos do poeta. No plano intelec-tual, no entanto, a Vnus no parece ter se afastado muitodaquele rebanho de estpidas que a misoginia do poeta tantodesprezava (ou temia). Jeanne Duval representa o polo carnaldo poeta. Entre rupturas e reencontros, tempestades e xtases,o poeta nunca se afastou dela.

    Madame Sabatier incarnava o outro polo da afetivida-de de Baudelaire. O polo espiritual. No lhe faltava distinointelectual nem charmes fsicos. Cartas de amor e poemasannimos traduzem a adorao esttica que o poeta dedicava Presidente, como tambm era chamada. ApollonieSabatier entrega-se ao poeta em agosto de 1857 e no diaseguinte a ruptura. O amor no resistiu prova da carne.

    Marie Daubrun enfim ocupa um lugar mais difcil aser definido. Atriz, amante oficial do poeta Thodore deBanville, sabe-se que entre 1854 e 1863, ofereceu tambmfervor e carinho ao nosso poeta.

    A evocao dessas figuras femininas reais vem noslembrar que h uma ligao ntima e profunda entre o autore sua obra. Numa carta a Ancelle (conselheiro jurdico dopoeta desde 1844) datada de 28-02-1866, o poeta confessa:

    Faut-il vous dire vous qui ne lavez pas plus devin que lesautres que dans ce livre atroce, jai mis tout mon coeur, toutema tendresse, toute ma religion (travestie), toute ma haine?

    Essa declarao do poeta merece dois comentrios: EmboraLes Fleurs du Mal tenha sido dedicado a Thophile Gautier,mestre de lArt pour lArt, escola literria que afirmava aprimazia da forma sobre a mensagem, da tcnica sobre ainspirao, embora Baudelaire tenha sido consciente davalidade de certos argumentos dos formalistas de 1850, elenos convida aqui a desconfiar de qualquer assimilao dasua obra a uma manifestao de arte pura.

    Mas nem por isso Les Fleurs du Mal deve ser consi-derado como um grande memorial, ou uma confisso presanas regras da versificao. inegvel que, como o sublinhaHenri Lemaitre no prefcio a nossa edio da obra (Garnier-Flammarion), inegvel que h em LesFleurs du Mal, todaa experincia de um ser rico de cultura e de paixo, deespiritualidade e de sensualidade. Mas se no existe poesiasem experincia, qualquer que seja ela, tambm no existepoesia sem linguagem. Foi porque ingressou no universoestvel e definitivo da poesia que a experincia do poetapde escapar ao corrosiva da vida e do tempo. o quevamos procurar mostrar na leitura comentada dos quatropoemas a seguir:

    - Parfum Exotique- Que diras-tu ce soir, pauvre me solitaire- Spleen LXXVIII- La Mort des AmantsOs trs primeiros poemas Parfum Exotique, Que

    diras-tu ce soir, pauvre me solitaire e Spleen LXXVIIIpertencem ao primeiro dos seis captulos que integram aestrutura da obra na sua edio definitiva. Faremos um rpidocomentrio a respeito dessa ordem que nada tem a ver coma composio cronolgica dos poemas, mas com a projeoda lgica interior do poeta, a verdade e a unidade da suavida. Antes de Spleen et Idal, o poeta dirige-se ao leitoratravs do poema intitulado Au Lecteur. A dimenso meta-fsica do livro aparece nesses versos sem equvoco. O homemvive afundado no pecado e Sat triunfa nesse mundo. EmSpleen et Idal, como indica o ttulo, o poeta descreve adupla postulao do seu ser, dilacerado entre a sede do idealperdido e o atoleiro nos tormentos cotidianos. Esse sofri-mento moral e fsico recebe os nomes de ennui, guignone sobretudo spleen. A estrutura interna de Spleen et Idalsegue uma ordem inversa que deixa esperar o ttulo. Defato, deixaremos o Idal para mergulhar no Spleen. A questo: como escapar ao Mal?

  • Pela Arte, sugere a primeira parte do conjunto queevoca a grandeza e a misria do poeta e seu ideal de beleza?

    Pelo Amor, talvez, atravs dos quatro ciclos femi-ninos j evocados anteriormente? Parfum Exotique e Quediras-tu ce soir, pauvre me solitaire ilustram esse movi-mento, retomando no registro amoroso o drama metafsicodo poeta. Baudelaire preso entre dois amores, o de JeanneDuval e o de Madame Sabatier, a serpente e o anjo.

    Mas nem a Arte, nem o Amor permitem escapar. Opoeta no atinge o ideal e esbarra no spleen. O terceiro poemaSpleen LXXVIII ilustra essa outra temtica. O vigor noturno,solitrio, carceral do spleen vem esmagar o sonho do poetae por essa razo, ao nosso ver, tinha que ser registrado nesseestudo.

    No vamos entrar no detalhe dos captulos seguintes.Basta lembrar que enquanto Spleen et Idal expressasobretudo a experincia pessoal de Baudelaire, os outroscaptulos, mais curtos, traduzem um tipo de experincia maisuniversal. So eles:

    - Tableaux Parisiens (aparece o sentimento muitomoderno da solido dos homens na ilusria comunidadeurbana)

    - Le Vin (a primeira das grandes tentaes da carnepara escapar s exigncias da sua condio)

    - Fleurs du Mal (integra a maior parte das peas queforam condenadas em 1857: romantismo macabro, vampi-rismo, provocao)

    - Rvolte (momento da raiva e do antema contra umDeus mentiroso)

    - La Mort (a nica soluo que nos oferecida paraescapar desse mundo entregue ao Mal a Morte).

    A morte o sexto e ltimo captulo de Les Fleurs duMal, a morte como ltima tentao e tentativa, ltima apostana reconciliao e na salvao possvel do homem. Pertencea esse captulo o quarto poema proposto leitura: La Mortdes Amants. Como todo esquema, essa classificao impeuma certa rigidez mas ela permite, pelo menos, situar melhora temtica amorosa na economia geral da obra. Por umarazo de eficcia, reproduzimos a seguir apenas o primeirodos poemas selecionados, objeto de um comentrio maisdetalhado. Os outros trs podero ser consultados em anexo.

    PARFUM EXOTIQUE

    Quand, les deux yeux ferms, en un soir chaud dautomne,Je respire lodeur de ton sein chaleureux,Je vois se drouler des rivages heureuxQublouissent les feux dun soleil monotone;

    Une le paresseuse o la nature donneDes arbres singuliers et des fruits savoureux;Des hommes dont le corps est mince et vigoureux,Et des femmes dont loeil par sa franchise tonne.

    Guid par ton odeur vers de charmants climats,Je vois un port rempli de voiles et de mtsEncor tout fatigus par la vague marine,

    Pendant que le parfum des verts tamariniers,Qui circule dans lair et menfle la narine,Se mle dans mon me au chant des mariniers.

    primeira leitura de Parfum Exotique, o poemaparece promessa. um soneto absolutamente regular queresponde a todas as regras do gnero:

    Como outros poemas da felicidade na obra, eleapresenta uma mtrica harmoniosa, ritmos equilibrados euma procura constante da musicalidade.

    - h uma maioria de cortes no hemistquio dos versosalexandrinos

    - h um enjambement entre os versos 3 e 4 queamplifica a 1. estrofe e alarga a imagem da luz

    - as duas quadras formam uma frase s, demorada,com um desenrolar preguioso, quase ininterrupto, se nofossem os 2 pontos e vrgulas dos versos 4 e 6. Os 2 tercetosformam, eles, uma nica frase que, com a retomada anafricade Je vois... d continuidade ao movimento euforizanteiniciado nas quadras.

    As imagens desse universo de felicidade falam decalor, de luz, de sensualidade, de abolio do espao e dotempo. um universo de ressonncias e de correspondnciasentre as diversas sensaes, universo que escapa s corrup-es do cotidiano.

    A harmonia no s rtmica, tambm sinestsica.Aqui o sentido do olfato que tomado como refernciainicial, logo associado ao visual: Quand (...) Je respire (...)Je vois (...) - (versos 2 e 3). Assim, o poema instala logo onarrador/sujeito numa espcie de beatitude interior: les deuxyeux ferms(v.1), decorrncia de uma situao amorosasugerida no verso 2: lodeur de ton sein chaleureux.

    O sonho exalta-se e faz rimar exotismo e erotismo.A ilha do verso 5 traz tona a lembrana da viagem de 1841 ilha da Runion, mas ela sobretudo a metfora do espaopreservado do sujeito amoroso, ensimesmado no crculo doseu imaginrio. Espao atravessado de homens e mulheresideais, esboados, (v.7 e 8) debaixo de uma luz rida (v.4).Passamos tambm do seio da mulher amada ton sein (v.2) aum plural indeterminado des hommes...des femmes (v.7 e 8).

    Temos ento um paraso onrico, calmo e longnquo.Mas um paraso annimo, sem rosto, ilhado e sem

    ponte, cuja luz no permite sombra. O sol montono. Osonho outonal.

    Na poesia de Baudelaire, o outono uma estaoparadoxal, atravessada pela lembrana da felicidade mastambm perseguida pela obsesso da morte, do frio. O outonopermite ao poeta expressar temas prediletos como angstialatente, carter efmero do belo, aspecto fugaz das coisas.

    Os dois tercetos reafirmam a presena da amante quese tinha dissolvido no coletivo indeterminado do parasoinsular. Volta a mesma materialidade sensual do odor tonodeur (v.9), dando novo impulso ao sonho, escrita, com areiterao do processo das correspondncias entre o olfatoe o visual (v.9 e 10). A imagem do porto sucede imagem

  • da ilha, sugerindo a perspectiva de outra viagem na viagem;fatigus (v.11) prolonga a languidez adormecida do verso5 paresseuse.

    No ltimo terceto aparece uma nova rede de corres-pondncias:

    1. entre o olfativo e o auditivo pela associaolexical: parfum (v.12) e chant (v.14)

    2. entre o visual e o auditivo pela extrema riqueza darima verts tamariniers (v.12)/ chant des mariniers (v.14)

    Esses ltimos versos inovam em vrios sentidos:- O odor (lodeur) da amante cuja presena material

    foi apenas metonmica: ton sein, quando no dissolvida, substitudo pelo perfume (parfum) dos tamarineiros longn-quos, onricos. O odor nos parece mais fsico, material, pesado;o perfume seria mais leve, voltil, disperso, abstrato. Noentanto, o perfume dos tamarineiros apaga o odor da amante.

    - Todo esse ritual encantatrio dos perfumes, dossons, das cores acontece na alma do poeta (v.14). O itinerriodessa viagem imvel teve como ponto de partida ton sein(v.2) para chegar em mon me (v.14).

    - Ao mesmo tempo que o mundo ideal, onrico,voluptuoso ao qual acede o poeta nasce do corpo da amante,esse mundo feito do esquecimento, da ausncia ou daexcluso da mulher presente.

    - Permanece o poeta no xtase narcseo de um mundode imagens e sensaes elaborado na confluncia do imagi-nrio pungente e da memria propiciadora.

    Parfum Exotique revela-se ambguo. primeira lei-tura parece-nos um poema de pura felicidade, segundaleitura transparece uma certa tristeza da carne. Ser porquea felicidade confunde-se com exotismo, sensualidade,refinamento, mistrio mas no com o amor? Ser ento queo amor puroque o poeta dedica a Madame Sabatier serforte o suficiente para vencer a maldio que pesa sobreele? Em Que diras-tu ce soir, pauvre me solitaire, a mulheraparece como uma figura angelical e quase mstica, triun-fando da carne e capaz de gui-lo ao ideal de pureza celestiale espiritual. Construdo como um dilogo entre a alma dopoeta abandonada, deserta e a alma do anjo, fantasma e flamaao mesmo tempo, esse soneto vale sobretudo pela santifi-cao do personagem de Apollonie Sabatier; santificaoprecedida de uma espcie de hino com o alexandrino deritmo ternrio: A la trs belle, la trs bonne, la trschre (verso 3). Todos os atributos da mulher veneradarecebem uma adjetivao do registro mstico, afastandoqualquer espcie de materialidade. O olhar divino (v.4), acarne espiritual (v.7), o perfume dos anjos (v.7). Essadesencarnao do ser feminino nos afasta da dimenso mortaldo corpo da mulher, desse abismo de natureza onde o preoa pagar pelo prazer sensual o da alienao do esprito e daalma. Ao contrrio de Jeanne, demonaca, tentadora, dio-nisaca, a divina Apollonie regenera e restaura a dignidadedo poeta (v.4 e 8). Mas essa renovao nos parece muitoretrica, a palavra cannica, a voz a da ordem: Jordonne(v.12). Enfim, o verso 14: Je suis lAnge gardien, la Museet la Madone, convence pouco e, ao contrrio do efeito

    desejado, nos remete evocao de Jeanne. LAngegardien, o anjo da guarda ope-se ao anjo maldito e tenta-dor; la Muse, a musa inspiradora contrape-se idia daamante vampira e corruptora; la Madone branca e virginalimpe a presena da Vnus negra de carne e sangue...

    A vitria do amor sobre o tempo e a morte ambgua,indecisa, no tem vigor suficiente para tirar definitivamenteo poeta da priso e do spleen. Ao sair dos ciclos do desejoamoroso, comea o ltimo movimento do primeiro captulode Les Fleurs du Mal, o do Spleen. Aps ter verificado ocarter inacessvel do ideal, aps as tentaes repetidas,abortadas, da sensualidade e da espiritualidade, o poetareconhece o vazio do desejo e confessa o desejo do vazio.A palavra spleen emprestada lngua inglesa dificilmentetraduzvel em francs sem recorrer a perfrases e sinnimosdiversos. Essa palavra, no entanto, tornou-se emblemticade uma parte essencial da inspirao e da obra do poeta.Sem entrar no detalhe do poema Spleen 78, mas inspirando-nos do Spleen 75, 76, 77 e 78 da coletnea, podemos definiro spleen de Baudelaire como um mal fsico e psicolgico.Do ponto de vista fisiolgico, o spleen caracteriza-se na obrade Baudelaire por sensaes de fraqueza e desgaste, umacarne ulcerada, esgotada, metaforizada atravs de paisagensfnebres (Spleen 75), impresses de opresso lgubre, sufo-cao (primeira estrofe do Spleen 78). Psicologicamente, um sentimento de tdio, de atoleiro, de esprito embrutecido(Spleen 77), a conscincia do abandono traduzido de modoperfeito e trgico nesse belo verso de Le got du Nant:

    Le Printemps adorable a perdu son odeur!

    Vem a morte dos amantes. Que o ttulo no engane!La Mort des Amants um poema cheio de esperana, quedeixa entrever uma salvao possvel. como se o poetapercebesse no infinito do alm tudo o que a finitude daexistncia sempre lhe negou. O futuro de deciso no deixamargem dvida, a antecipao segura de um reencontroamoroso, sensual, espiritual, onde cada um espelha o outro(v.8). Almas gmeas, eternamente juntas na fraternidadeamorosa. O tmulo torna-se matriz de um renascer. O renas-cer triunfante do artista atravs das flores do mal sublimadasem flores de esperana e eternidade.

    Nous aurons des lits pleins dodeurs lgres,Des divans profonds comme des tombeaux,Et dtranges fleurs sur des tagres,Ecloses pour nous sous des cieux plus beaux.

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

    BAUDELAIRE, Charles. Les Fleurs du Mal et AutresPomes. Paris: Garnier-Flammarion, 1964. 252p.

    _______.Charles. Mon coeur mis nu. Paris: LibrairieCharpentier, 1965. 184p.

    _______.Charles. Curiosits Esthtiques. Genve: d. DuMilieu du Monde, [197-]. 609p.

  • Et que de lhorizon embrassant tout le cercleIl nous verse un jour noir plus triste que les nuits;

    Quand la terre est change en un cachot humide,O lEsprance, comme une chauve-souris,Sen va battant les murs de son aile timideEt se cognant la tte des plafonds pourris;

    Quand la pluie talant ses immenses tranesDune vaste prison imite les barreaux,Et quun peuple muet dinfmes araignesVient tendre ses filets au fond de nos cerveaux,

    Des cloches tout coup sautent avec furieEt lancent vers le ciel un affreux hurlement,Ainsi que des esprits errants et sans patrieQui se mettent geindre opinitrement.

    -Et de longs corbillards, sans tambours ni musique,Dfilent lentement dans mon me; lEspoir,Vaincu, pleure, et lAngoisse atroce, despotique,Sur mon crne inclin plante son drapeau noir.

    LA MORT DES AMANTS

    Nous aurons des lits pleins dodeurs lgres,Des divans profonds comme des tombeaux,Et dtranges fleurs sur des tagres,Ecloses pour nous sous des cieux plus beaux.

    Usant lenvi leurs chaleurs dernires,Nos deux coeurs seront deux vastes flambeaux,Qui rflchiront leurs doubles lumiresDans nos deux esprits, ces miroirs jumeaux.

    Un soir fait de rose et de bleu mystique,Nous changerons un clair unique,Comme un long sanglot, tout charg dadieux;

    Et plus tard un Ange entrouvrant les portesViendra ranimer, fidle et joyeux,Les miroirs ternis et les flammes mortes.

    _______.Charles. Les Paradis Artificiels. Paris: Garnier-Flammarion, 1966. 189p.

    _______.Charles. Le Spleen de Paris. Paris: LibrairieGnrale Franaise, 1964. 190p.

    BONNEVILLE, Georges. Les Fleurs du Mal. Paris:Hatier,1987. 80p.

    DECAUNES,Luc. Charles Baudelaire. Paris: Seghers,1952. 190p.

    DUBOSCLARD,Jol & CARLIER, Marie. Les Fleurs duMal - Le Spleen de Paris. Paris: Hatier, 1992.159p.

    RINC, Dominique. Baudelaire. Paris: Nathan, 1994. 127p.

    SARTRE, Jean-Paul. Baudelaire. Paris: Gallimard, 1963.245p.

    ANEXO

    XLII

    Que diras-tu ce soir, pauvre me solitaire,Que diras-tu, mon coeur, coeur autrefois fltri,A la trs belle, la trs bonne, la trs chre,Dont le regard divin ta soudain refleuri?

    - Nous mettrons notre orgueil chanter ses louanges:Rien ne vaut la douceur de son autorit;Sa chair spirituelle a le parfum des Anges,Et son oeil nous revt dun habit de clart.

    Que ce soit dans la nuit et dans la solitude,Que ce soit dans la rue et dans la multitude,Son fantme dans lair danse comme un flambeau.

    Parfois il parle et dit: Je suis belle, et jordonneQue pour lamour de moi vous naimiez que le Beau;Je suis lAnge gardien, la Muse et la Madone.

    SPLEEN

    Quand le ciel bas et lourd pse comme un couvercleSur lesprit gmissant en proie aux longs ennuis,